Roteiros Incríveis: “Annie Hall”

screen-shot-2017-02-15-at-9-32-23-pmO ano de 1977 foi inesquecível para a História do Cinema. Enquanto Steven Spielberg trazia OVNIs para as telas em “Contatos Imediatos do Terceiro Grau”, David Lynch entrava na escuridão surrealista de “Eraserhead” e John Travolta arrebatava as plateias e bilheterias de todo o mundo com “Os Embalos de Sábado à Noite”.

Por outro lado, Bergman refletia sobre o nazismo em “O Ovo da Serpente”, George Lucas fundava uma mitologia bilionária com o primeiro Star Wars e um neurótico comediante nova-iorquino colocava todo seu conhecimento sobre cinema em um filme de baixo orçamento e grande repercussão.

“Annie Hall” (ou na tradução brasileira “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”) traz uma série de recursos da linguagem audiovisual, todos eles usados de forma inteligente para integrar os vários aspectos da história como um todo.

Para isso, Woody Allen usa técnicas variadas como legendas que revelam o pensamento dos personagens, cenas em animação, cronologia variável, metalinguagem, telas dividas e até o recurso de dirigir-se diretamente ao espectador, quebrando a chamada quarta parede.

O sexto filme dirigido por Woody Allen é ambicioso e ao mesmo tempo sensível. Parte dessa sensibilidade – que remete à história universal de amores partidos, marcantes e eternos -, vem do roteiro.

“Annie Hall” conta a história de do comediante judeu Alvy Singer e sua paixão por Annie Hall, uma cantora em início de carreira. A aparente simplicidade da trama central é, ela mesma, um recurso que Woody Allen usa para fazer grandes reflexões sobre situações banais que todos nós enfrentamos no dia a dia. Como na cena em que Alvy espera na fila e é obrigado a ouvir um sujeito falar bobagens sobre Fellini e sobre o pensador Marhall McLuhan.

ALVY

I’d give anything for a large sock with horse manure in it.

Line moves, Alvy addresses camera.

ALVY

What so you do when you get stuck with a guy like this behind you at a movie line?

A cena chega ao clímax de forma hilária quando o verdadeiro McLuhan aparece para esclarecer um ponto da discussão. É Woody Allen em sua melhor forma.

Outro recurso pensado no roteiro de “Annie Hall” está relacionado com as motivações de Alvy Singer. Woody Allen sabe que seu protagonista é o coração do drama. E é pelo ponto de vista de Alvy que o espectador é apresentado para a personagem-título. Dessa forma, o diretor oferece doses de motivação que mapeiam as ações ou pensamentos futuros de Alvy Singer. Assim, os flashbacks acabam sendo um sábio recurso para as idas e vindas na vida do protagonista.

A propósito, Alvy Singer pode ser considerado o alter-ego do diretor, uma espécie de modelo de personagem que permeia grande parte da obra de Woody Allen. Alvy é judeu, neurótico, engraçado, deslocado e bastante inseguro em relação à relacionamentos e mesmo à certos assuntos como sexo. O que nos leva ao diálogo afiado do roteiro, outra característica marcante do Woody Allen roteirista.

Nesta cena, Alvy se recusa a entrar no filme depois que a sessão já começou.

ALVY

I’m sorry. I have to see a movie from the beginning to the end. I’m anal.

ANNIE HALL

That’s the polite word for what you are.

“Annie Hall”, filme que definitivamente marca a carreira de Woody Allen, é uma obra-prima. Mais de 30 anos depois, a obra ainda permanece fresca, viva, engraçada, tocante e imortal.